Veraneio
Solenoide, a pequena humanidade, a lua cheia
1.
É primeiro de janeiro. No avião para a Bahia, troco Solenoide por contos de Alice Munro. A população romena me despreza. Já entende que não sou um leitor confiável, até porque na virada do ano eu estava em Paris, exposto à presença desconcertante de Zazie. A transição da Bucareste de Cărtărescu para a Bahia de Dorival Caymmi não é imediata. Preciso de um objeto ficcional transicional.
Na viagem, leio o primeiro conto, homônimo: Hateship etc. Gosto do conto em geral, até suspendo a descrença para o enredo epistolar, mas gosto acima de tudo da cena inicial na loja de vestidos. É apenas uma cena de abertura que acompanhamos antes de saber quem é essa personagem e quanto de aparente delírio há naquele vestido. Pequeno conto dentro do conto, poderia se chamar “O caso do vestido”, e é suficiente para ilustrar que escritora superior é Alice Munro, do nível de uma Flannery O’Connor ou de uma Doris Lessing, um Nobel bem dado. Quando leio “Family Furnishings” nem sei o que dizer. Sem brechas, se fosse uma cidadela, era inconquistável. Os gregos padeceriam nas praias.
Ainda assim, lendo esses contos de Alice Munro, não consegui deixar de entrever, aqui e ali, uma psicopata. Há uma frieza na narradora de Family Furnishings que soa vagamente inumana. É o julgamento da tia sobre ela: “She said you were kind of a cold fish.” O olhar de uma mente dissociada de todos os, digamos, valores sentimentais. É o mesmo olhar da remetente secreta de Hateship etc., que de certa forma reaparece amadurecida em Family Furnishings. Obviamente, é uma percepção que tenho agora porque estou ciente do caso Munro. Essa frieza em outra circunstância talvez me parecesse algo bem diverso, mais louvável ou simplesmente interessante. Até porque há a distância irônica entre a moldura autoral e a narradora encenada ali.
O caso Munro, porém, contamina; é algo muito difícil de desver.
2.
O avião pousa em Salvador quando me falta literalmente um parágrafo para terminar o conto homônimo. A massa dos passageiros se levanta, se avoluma. Nunca me acostumo a esse frêmito que faz os passageiros se engatilharem no corredor, como se nada fosse mais insuportável do que permanecer um segundo a mais no avião. Como estou no corredor, sinto a pressão do jovem casal que atrapalho, também possuídos pelo frêmito. São pessoas razoáveis, durante todo o vôo o rapaz e eu negociamos civilizadamente o apoio de braço, mas agora os dois querem ficar de pé, abrir o compartimento das malas, retirá-las sem muito zelo, aceitando o risco de um golpe acidental numa cabeça disponível. Que falte apenas um parágrafo do conto para ser lido concentradamente jamais os comoveria. Eu guardo o livro, me levanto e dou passagem.
3.
Nas noites praianas, escuto “Tempo Feliz”, de Baden Powell, “Igreja da Penha”, de Guinga, depois retorno a Bucareste. Romances fora de lugar. Sempre que o narrador anuncia que vai transcrever mais alguns sonhos, eu me exaspero. Peço não, não, não. Mas lá vem mais sonhos, em letra miúda. Pesadelos, na verdade. Ou epifanias. Com visitantes. “...a ideia de realidade, a mais fantástica invenção da mente humana (p. 401).”
Um amigo me diz o contrário: sempre que o narrador anuncia que vai transcrever mais alguns sonhos, ele “se arrepia”.
O povo romeno diz: Seu amigo, eis aí um leitor.
4.
Há o mar, a primeira lua cheia do ano vem cedo, mas o veraneio é parcial. Um prazo me acossa. Vida pjotizada. E há o pastoreio do bode de dois anos e meio, que resolvemos pela divisão de tarefas. A cada duas horas ocorre a Troca da Guarda. A escolha do número foi intuitiva, levando em conta o ethos geral do lote praiano. Não fosse essa designação — a Troca da Guarda —, tudo seria mais difícil. Para isso servem as metáforas. A ficção suprema de Stevens. A metáfora inspira. É possível correr anunciando “Troca da Guarda! Troca da Guarda!”, como se fosse imperioso. Em pouco tempo toda a população do lote está ciente dos protocolos da Troca da Guarda. Mesmo as crianças maiores sabem do cronômetro. Há desconfianças de ambos os lados quanto à correção ética no disparo da contagem. Mas, fora algumas escorregadas, o protocolo funciona. Graças à metáfora.
A poesia é a única coisa útil do mundo.
5.
Depois da invasão da Venezuela e do discurso de Trump, que circula sem grande escândalo da parte do público estadunidense, mesmo entre a porção progressista e supostamente esclarecida, anuncio ao lote que estou em boicote aos Estados Unidos. Fiz meu embargo pessoal. Anuncio inclusive que não lerei nenhum escritor de lá, não verei nenhum filme. Me irrita o desinteresse também dos artistas, que não deixam de ganhar com a dominância do Império. Aliás, digo, Uma Batalha Depois da Outra, apesar da perseguição final, tão bem bolada e montada, me pareceu uma grande tolice. Ninguém leva a sério o meu embargo. Alguém crava: Quaresma!
6.
Depois de seguidos episódios de violência e manipulação psicológica entre primos, organiza-se uma roda de conversa à noite. As crianças se engajam. Dão seus relatos, fala-se da dor, da vergonha, uma delas menciona a grave questão da discrepância entre a quantidade de picolés de coco e o número de interessados que vêem nos picolés de coco seus prediletos, esclarecimentos são feitos. Fala-se do corpo do outro. Sobretudo sobre não machucar o corpo do outro.
No dia seguinte, os episódios de violência explícita cessam, mas há agora uma epidemia de superioridade moral. As crianças adotaram o idioma da roda de conversa e agem de maneira convenientemente conscientizada. Há uma pancada acidental, pede-se desculpas, mas não se aceita, pois “Você não está entendendo, Manu, você machucou o meu corpo!” “Foi sem querer, Pablito!” “Não basta dizer que foi sem querer!” A linguagem da conciliação é usada para enquadrar, inverter, torturar psiquicamente.
Disputam tudo. Não é outra coisa, senão a pequena humanidade.
7.
Pela sexta noite do ano, tenho eu mesmo um sonho. Infelizmente, não se passa na “Bucareste remota e improvável” (p. 205) de Cărtărescu. Queria topar com o narrador de Solenoide, talvez investigar outra fábrica abandonada nos arredores da escola (há um certo toque de Stranger Things para adultos). Mas não tem nada a ver com isso. Sonho que um dos meus sete subscritores pagos do Substack me escreve um email dizendo que se sente enganado, pois se deu ao trabalho de digitar os dados necessários em uma nova plataforma virtual da qual ele tinha tudo para desconfiar, realizando todos os trâmites devidos, sofrendo esse longo aborrecimento para apoiar não a causa da literatura brasileira contemporânea ou qualquer coisa do tipo, mas a causa de Odorico Leal, muito mais desoladora e sem esperança — uma causa em que qualquer contribuição é no fundo jogar dinheiro no lixo — e de todo esse esforço o que ganha em troca? Duas ou três postagens em muitos meses: Escrevo este email por uma questão ética, sinto-me lesado. Não que tenha gostado particularmente do que você escreveu.
8.
São assim os primeiros dias de 2026. Todas as noites a lua nasce uma hora mais tarde, vai minguando, aos poucos engolida pela escuridão, mas ainda assim, mesmo pela metade, assombra. Só um tio não se comove, diz:
— Já vi lua demais.
É uma frase boa. Porém, quero envelhecer me levantando para ver a lua, envelhecer dizendo:
— Nunca vi uma lua.


Uau!
nunca se tem lua demais. ela é toda a poesia._ a única coisa útil.