O livreiro
Sobre afinidades, escolas e constelações.
Dois ou três meses atrás, no lançamento de um amigo, o livreiro de plantão se aproximou de mim, perguntou se eu não era o autor de Nostos Canibália e disse que amava contos. De vez em quando isso me acontece: alguém vem me dizer que ama contos, como se eu de alguma forma fosse um paladino do gênero, quando na verdade eu detesto contos. Só não detesto contos tanto quanto detesto romances. A ideia de alguém querer me contar uma história de mentira só não me irrita tanto quanto a ideia de alguém querer me contar uma história de mentira em trocentas páginas. Por prazer eu só leio poesia, ensaios sobre poesia, diários e correspondências de poetas.
Jamais diria nada disso ao simpático livreiro que me abordou, que elogiou generosamente Nostos Canibália e que era um entusiasta dos contos. Pelo contrário: eu disse que os contos estão vivendo uma época de ouro, que nunca houve tanto interesse por coletâneas de contos e que mesmo em termos mercadológicos o conto hoje é uma força capaz de rivalizar com as biografias e os livros de colorir. O livreiro, que conhece o cenário bem melhor do que eu, riu.
Depois chegou aonde queria chegar: perguntou se eu tinha lido O Toldo Vermelho de Bolonha, de John Berger. Quando eu disse que não, ele me puxou de lado e disse que eu tinha de ler O Toldo Vermelho de Bolonha, pois o estilo de John Berger o lembrava muito do meu estilo. Que nós tínhamos um “senso da vida” parecido. A afirmação me intrigou. Achei interessante a ideia de que eu tivesse um “senso da vida” e que esse senso da vida fosse detectável nos contos de Nostos Canibália. Pois não tenho a impressão de ter um “senso da vida” e quanto mais repito a expressão “senso da vida” menos compreendo o que se queira dizer com “senso da vida”. Mas fiquei intrigado, agradeci o livreiro pela dica e comprei o livro.
Em casa eu li O Toldo Vermelho de Bolonha, brevíssimo relato de uma alma claramente poética, alguém que lê diários de poetas, e talvez por isso me emocionei muitíssimo com tio e sobrinho trocando segredos à distância no centro comercial do Pavaglione. Lendo, constatei também que não havia rigorosamente nenhuma semelhança entre qualquer aspecto da escrita de John Berger e da minha. Na verdade, era possível dizer que não havia autor mais distante da minha escrita e de qualquer hipotético “senso da vida” que eu porventura tivesse. E mais: a sugestão de qualquer afinidade era um crime contra a reputação de John Berger. Fiquei sem entender.
Semanas depois, fui de novo à mesma livraria, e lá estava o livreiro. Não comentei nada com ele, não queria constrangê-lo. As pessoas veem associações onde não existem, é normal, e não se pode condenar ninguém por isso. Dessa vez ele perguntou se eu já tinha lido os contos de Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero. De novo tive que dizer que não. Ele falou que era loucura, que alguém tão investido no conto como eu tinha que ler María Fernanda Ampuero, especificamente Sacrifícios Humanos, pois em Sacrifícios Humanos ele via uma série de proximidades com os contos de Nostos Canibália. Segundo o livreiro, éramos, María Fernanda Ampuero e eu, da mesma escola. Fiquei intrigado, agradeci a dica e comprei o livro.
Em casa, li Sacrifícios Humanos com todo o interesse que consigo dedicar às coisas que não são uma carta de 1820 de Keats para Shelley. De novo não pude ver qualquer afinidade entre o que escrevo e o que escreve María Fernanda Ampuero. Não éramos da mesma escola. E, de novo, a reputação de María Fernanda Ampuero saía manchada.
Em novo lançamento, o mesmo roteiro: eu tinha que ler, para ontem, Rejeição, de certo Tony Thulatimutte, Kairós, de Jenny Erpenbeck, os Contos Completos, de José Donoso. Em todos os casos o livreiro tinha notado espantosas afinidades com os contos de Nostos Canibália. Eu me frustrava, mas passada uma ou duas semanas me esquecia e de novo dava ouvidos ao livreiro.
Um dia, eu estava saindo da livraria tendo comprado O Aniversário, de Andrea Bajani, sempre sob influência do livreiro, e topei com César Madero, velho amigo e autor do indispensável Os Gols Perdidos, pequena coletânea de relatos em que descreve com minúcia e bom humor os mais célebres gols perdidos da história do futebol. César me perguntou por que comprei O Aniversário e não os livros de poesia que sempre compro. Falei das indicações do livreiro, que nos observava à distância. As impressões desse camarada me intrigam, comentei. Madero olhou na direção do livreiro, que na ocasião tinha um olho roxo.
— Quando lancei Os Gols Perdidos — disse-me meu velho amigo César Madero —, esse mesmo livreiro, sob o pretexto de afinidades com meu projeto, me fez ler António Lobo Antunes, dois romances de Natalia Ginzburg, a trilogia da Fundação, de Asimov. Cheguei a comprar um grosso volume de um tal de William T. Vollmann, mas, felizmente, não li.
Eu continuava sem entender. Madero me explicou:
— Ele inventa afinidades. Bolou uma estratégia infalível para vender livros aos escritores que frequentam a livraria. Ele se aproxima com um livro de um autor consagrado e sussurra ao pé do ouvido da vítima: Vejo semelhanças espantosas entre os projetos de vocês, ou Vocês são frutos da mesma árvore, ou A convergência temática não é negligenciável. Nenhum escritor resiste a isso.
Fulminei o livreiro com um olhar de ódio, repassando na cabeça nossas interações, os livros nos quais ele tinha visto suas “afinidades”, as coincidências em termos de “senso da vida”. Eu tinha gastado uma fortuna naquela livraria, e isso em um momento, como todos os outros momentos da minha vida, em que eu andava financeiramente desprevenido. Continuei a encarar o livreiro, que aos poucos me ofereceu um sorriso maroto. Fiz menção de ir até ele — meu objetivo era lhe consagrar um segundo olho roxo —, mas Madero me impediu.
— Pelo menos assim você leu alguma coisa cujas frases vão até a margem da página.
Aceitei o argumento e peguei o rumo da minha parada de ônibus. Ponderava o golpe do livreiro: ele jogava com nosso desejo de sermos contemplados, de que nos deem atenção, de que nos leiam com inteligência, a ponto de notarem equivalências, constelações. Não podia negar que era um bom golpe.
Meu ônibus chegou, dei sinal e subi. Passada a fúria inicial, já começava a achar graça da iniciativa do livreiro: no rol de delitos ele tinha incorrido no mais inofensivo. Porém, podia ter chegado ao mesmo efeito, vender livros, sugerindo-me autores que de fato tivessem alguma afinidade, por mais vaga que fosse, com o projeto ou “senso da vida” de Nostos Canibália. Não precisava inventar afinidades que não existiam, a menos que —
Nesse momento senti a pontada definitiva na costela vaidosa e compreendi a extensão da covardia, de sua crueldade, seu jogo: o livreiro sequer tinha lido Nostos Canibália.
Dei sinal e desci do ônibus.


O seu amigo Madero precisa fazer uma edição só com os gols perdidos pelo Yuri Alberto, vai fazer sucesso em Itaquera
O “seu” livreiro me pareceu aqueles médicos que receitam remédios sem olhar para o paciente. Livros não devem ser prescritos a esmo, não é mesmo? Linda sua escrita!