Língua Morta
Última crônica do ano
Uma definição de língua morta: idioma onde ninguém mais nasce. Em língua viva não para de nascer gente. Os balbucios dos primeiros meses de um bebê são uma procura pelo idioma, como quem procura o peito e o leite. O peito geralmente o bebê encontra nos primeiros instantes, porque nascer dá fome. O idioma leva alguns meses para achar, até porque não queremos nos posicionar de imediato, precisamos entender o que está acontecendo. Como no caso do peito, é também com a língua que o bebê procura o idioma. Quando acha, não larga mais.
A certa altura, como Macunaíma, bebe água de chocalho e desata a dizer coisas. O que diz não importa muito: tudo no fim é uma ode ao idioma. Pelo menos é assim que o idioma entende. Falem bem ou falem mal: falem-me — é o lema do idioma.
Uma diferença: do idioma não precisamos desmamar. Ninguém chega e decreta: você já está crescido demais para falar esse idioma. Não choramos escandalosamente por já não poder dizer “mamãe” (com sorte, essa interdição só acontece bem mais tarde, e é melhor nem pensar nisso, pois o que vale a pena dizer se já não podemos dizer “mamãe”?).
Embora não haja propriamente desmame, cedo ou tarde temos que parar de andar nus ou de fralda suja no idioma. Perdemos a intimidade selvagem. Ficamos cerimoniosos: aprendemos a escrever. De certo ângulo, o alfabetizado é um beletrista, um pomposo, um subserviente. A poesia é uma revolta contra a alfabetização.
Tudo isso dá a medida da solidão de uma língua morta. Todos foram embora. Migraram para outro idioma, e já ninguém nasce. Uma língua morta é uma casa vazia. Na língua viva, há sempre alguém fazendo xixi no chão da sala.


Uma língua só vive enquanto permite que alguém a estrague um pouco…
Essa foi de resolver o trauma da fase oral!