Carnaval
O rapaz desvairado de Bandeira
Bloco fantasma. Muitos blocos de Carnaval por São Paulo, todos invisíveis; só escuto a música ao longe, como se viesse de outro tempo. Mas encontrei um folião desgarrado, às dez da manhã, na Pompeia, vestindo bermuda e uma infalível camisa de botão estampada. Parou numa esquina e parecia querer adivinhar pela música no vento a localização do bloco fantasma (talvez passasse ali mesmo, naquela rua, naquele instante, entre nós). Hesitou por um momento, ouvido alerta, depois sacou o celular do bolso, conferiu rapidamente e se mandou num ímpeto inequívoco. Para o carnaval dos vivos.
18/02/2017
Amor de Carnaval. Voltando do almoço, passo entre um casal de carnavalescos amorosos. Ainda há bloquinhos. Não se sai do Carnaval de uma vez. Descarnavaliza-se aos poucos. O próprio Carnaval é um amor de carnaval: dá pena que acabe, pede para ficar um pouco mais, suplica-se que adie a passagem. Não adianta: os ônibus, os trens, os aviões partem. O carnaval acaba.
09/03/2019
Na boca. Suspensão do fatalismo cronológico, o Carnaval começa cada vez mais cedo e termina cada vez mais tarde. Faz sentido, e nada contra. Mas a data certa é fundamental. Porque o Carnaval é uma brecha. Bem vivido, é marcado — assombrado mesmo — pela inevitabilidade do fim. No Carnaval, o carnavalesco que empenha corpo e alma experimenta mais do que os outros a antecipação da morte. Está no estado de espírito de quem recebe a notícia fatídica: você tem aí quatro dias para viver, mais nada. Por isso o verdadeiro carnavalesco se exaspera quando alguém diz: “Hoje não sei se vou.” Como não sabe? Como pode não saber? Em surto dionisíaco, nada lhe é mais antipático do que a frieza, a calma, a compostura, que a seus olhos é uma afetação de superioridade desumana. Conheço um carnavalesco que quase saiu no tapa com um amigo porque o amigo lhe disse: “Prefiro meu fundo de rede.” O fundo de rede!, onde transportavam os mortos no sertão — pondera o carnavalesco, que tem certeza de que os mortos no fundo da rede prefeririam saltar daquele ventre triste e pular o último carnaval. Manuel Bandeira é um dos maiores poetas do Brasil porque foi o primeiro a incorporar à poesia nacional o desespero sagrado do Carnaval. Nada expressa tão bem o Carnaval quanto seu “rapaz desvairado”, implorando o esguicho de lança-perfume: “Na boca! Na boca!” Isso resume tudo. Quem de um jeito ou de outro nunca gritou “Na boca! Na boca!” nunca foi carnavalesco. E é preciso que acabe assim, numa quarta-feira, ao meio da semana, o sonho morno do cotidiano reafirmando seu domínio sobre tudo e todos. O carnavalesco de verdade não é visto na Quarta-Feira, apegado à fantasia. Enfrentou a Terça-Feira Gorda com todas as armas. Foi até o fim. Gritou à vida: “Na boca! Na boca!”. O Carnaval é uma brecha, mas é grande.
20/02/2020
Sintomas grupais. Recebi um email da escolinha de Martim informando que o professor de capoeira estava com “sintomas grupais” e que por isso não haveria aula. Sintoma grupal, imagino, é febre de aglomeração. “O paciente está com um quadro grupal severo”, quer dizer, está querendo muito um Carnaval.
16/02/2022
Todos os carnavais do mundo. Há três dias ando meio desconfiado, sempre com a impressão de que estou ouvindo algum carnavalzinho nas redondezas. Averiguo a vizinhança pela janela: nada, silêncio total. Volto aos afazeres, a música longínqua recomeça. Na rua, a mesma coisa. Tenho a impressão de que atrás de mim estão pulando e dançando, eu me viro e nada: esperam o ônibus, levam os filhos pelas mãos, se apressam ou nem tanto. Suponho narcisisticamente um complô global, um show de Truman em que todos conspiram para esconder o Carnaval de mim. No elevador, uma senhora sem perfil carnavalesco deixa cair da bolsa um punhado de confete no chão, cantarolando, bem baixinho, alalaô. Seguro seu braço, pergunto o que ela cantou. Ela se recusa a responder; aperto, ela diz “Roberto Carlos”, como se eu fosse idiota. Em casa, desisto, sento no sofá da sala e escuto todos os carnavais do mundo.
01/03/2022
Um samba antigo. Para fechar este post pré-carnavalesco retroativo, o refrão de um samba intitulado “Assombração”, que compus em março de 2013. Na época, gravei precariamente no celular e enviei o áudio por email a um amigo, a quem eu enviava quase todos os meus sambas. (Nosso passado preservado do esquecimento um tanto por acaso nesses emails antigos, que escrevíamos sem pensar muito no fato de que ficariam gravados para sempre, como conversas telefônicas que ecoassem eternamente em algum orelhão mágico. Os diários involuntários.) Mais de uma vez meu amigo me disse que meu negócio não era samba, o que me incentivava a continuar lhe enviando sambas. Mesmo quando o assunto central do email era bem outro, eu acrescentava um P.S. e compartilhava o samba mais recente. Em resposta ele também acrescentava seu P.S., e certa vez como resposta escreveu: “Adicionaste outra prova à minha acusação”, o que me pareceu um soberbo verso de samba. Nessa época eu andava fascinado pelo samba e compunha muitos sambas ou pelo menos queria compor sambas. Quando minha febre passou, meu amigo um dia me escreveu perguntando onde andavam os meus sambas. “Não gostava dos sambas, mas gostava de recebê-los.” Até hoje não sei dizer onde anda o meu samba, mas desse sobreviveu o refrão, como sobreviveu também o rugido de um carro que passa no finalzinho do registro. Quem o guiava ficou preso nesse áudio, eternamente passando de raspão por um samba que nunca ouviu. A letra é um amontoado de lugares-comuns da lírica sambística, como diria meu amigo, mas gosto de um verso: “Não se preocupe em prever o meu futuro.”
“Não sei dizer aonde eu vou
nem se é certo eu encontrar
uma rua, um só bar
que me dê consolação
Maldiga a noite em que você me conheceu
mas saiba que eu não sou mais seu
você cuide da sua solidão
Não se preocupe em prever o meu futuro
deixa que eu sei andar no escuro
e, se tropeço, me levanto do chão
Ainda conservo braço, perna, o meu nome
faça o que quiser, mas some
da minha vida, assombração.”





Como pode um texto de paixão ao carnaval chacoalhar contagiantemente quem não gosta de carnaval? O samba eu amo, necessito declarar. Tem melancolia, tem aquela beleza “excêntrica”. Dá para sambar sozinho. Mas o bloquinho carnavalesco… é de uma euforia coletiva.
Sinceramente? Eu só sei me sentir uma velha chata, indignada com a euforia que explode lá fora e o silêncio que me aprisiona aqui dentro.
Que sambinha bom. Dá vontade de ficar deitado ouvindo no fundo de uma rede